Roupas Rituais

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A roupa usada na “nação” possuí um simbolismo muito rico, além de
ético e moral.

-Os axós dão para as mulheres posição e postura.
É bonito se notar a forma e a reverência que estas roupas expressam em
sua aparência e jeito: respeito acima de tudo!

O vestuário de uma Iyalorixá é diferente das roupas usadas pelas ekédis
e yaôs, é caracterizado pelo uso da “Bata” que é usada por fora da saia
com o camisu por baixo.

-A Bata é símbolo de cargo ou posto dentro da hierarquia.

*O PANO DA COSTA:*
-dobrado sobre o ombro também tem sua representação, é um símbolo de cargo,
-os Yaôs o usam amarrado no peito,
-as egbomis na cintura
-e Iyalorixás no ombro.

Normalmente, saias e Batas de bordado richelieu, também só são usadas
pelas Iyalorixás, assim como o pano da costa de Alaká africano.

-Os turbantes também chamados de torço ou ojá, usados na cabeça
normalmente são maiores e mais ornamentados, assim como determinados
fio-de-contas não podem ser usados por pessoas que não tem cargo, o (fio
de ouro)por exemplo só pode ser usado por Iyalorixás com mais de 50 anos
de Santo, símbolo de senioridade.

Roupa de ração é a roupa usada diariamente. São
roupas simples feitas de morim ou cretone.

As roupas de ração podem ser coloridas ou brancas, dependendo da ocasião
na roça de candomblé. Compõem o jogo: saia (axó) de pouca roda para
facilitar a movimentação, singuê (espécie de faixa amarrada nos seios
que substitui o sutian), camisu ou camisa de mulata, geralmente branco e
enfeitado com rendas e bordados, calçolão (espécie de bermuda amarrada
por cordão na cintura, um pouco larga para facilitar a movimentação e
proteger o corpo em casos que se é necessário sentar no chão), pano da
costa e o ojá, um pano que se amarra à cabeça.

Além do simbolismo do vestuário, existem muitos objetos que podem ser
caracterizados e usados somente por Iyalorixás e Babalorixás:
o anel de ouro com um búzio incrustado é um deles.
O brinco de ouro com búzio antes também exclusivo das iyalorixás
tornou-se de uso comum, sendo usado até por pessoas que não fazem parte
da religião.

Na nação Jeje o uso do Humgebê só é permitido a quem já fez a obrigação
de sete anos, ou melhor, é quando a pessoa recebe o hungebê que passa a
ser um vodunsi.

Outra característica do vestuário é o uso do Ojá na cabeça, no Jeje quem é de santo aboró usa o ojá com uma aba, e quem é de santa
Iyabá ou Aiabá usa duas abas,
nas outras nações algumas pessoas adotam esse uso.

Roupa do povo do santo

Indumentária afro-brasileira sobrevive como símbolo da cultura, da
religião e da resistência dos negros no país.

Começa através das mãos da mãe, da avó ou da madrinha de um
recém-nascido o primeiro ritual pelo qual passa uma criança nos
terreiros de matriz africana. São elas que tecem ou encomendam um tecido
que terá significado especial por toda a existência do descendente e
mesmo após sua passagem pela terra. Dezesseis dias depois de nascer, a
mão materna envolve o bebê no pano da costa especialmente lavado,
incensado e perfumado para a ocasião. É assim que tem início o
ikomojadê, cerimônia que apresenta, pela primeira vez, um novo filho ou
filha às divindades reverenciadas no candomblé.

É sobre esse tecido que a criança fica deitada, enquanto o líder
religioso da casa profere palavras sagradas de prosperidade ao
recém-nascido. O grupo faz saudações especiais diante de Xangô, Dadá,
Oxum e Iemanjá. Depois, derrama um pouco da água da quartinha na cabeça
da criança. Em alguns locais, nesse momento é escolhido um nome em
iorubá para o bebê. “É uma comemoração à vida, ao nascimento. Você só
pede coisas boas para aquele bebê. Esse tecido branco vai acompanhá-lo
para sempre”, explica e egbomi Cici, do Terreiro Ilê Axé Opô Aganju e
pesquisadora da Fundação Pierre Verger.

Guardado pela família, o tecido do Ikomojadê estará ao lado da criança
até o dia em que, jovem ou adulta, se despeça da vida. Ainda que o
ritual tenha variações – em algumas casas, ocorre no nono dia – ele
revela pistas da importância da indumentária para a cultura
negro-africana transportada pelo processo forçado da diáspora.

Um pedaço de pano pode simbolizar a sobrevivência de toda uma identidade
e conservar detalhes fundamentais de uma cultura. É possível perceber as
diferenças entre o povo de nação jeje, angola e iorubá apenas pela
maneira de amarrar o torço na cabeça, só para citar um exemplo. O
simples gesto de prender os cabelos num turbante, herança que sobrevive
através das vestes das baianas de acarajé, preserva a riqueza de um
hábito iniciado do outro lado do mar.

E não foram apenas os escravos seguidores da religião de raiz africana
que reafirmaram a identidade através da forma de se vestir. Os negros
muçulmanos eram tão reconhecidos por suas roupas nas ruas da velha
Salvador que, graças a elas, foi possível constatar o papel central
desempenhado pelos malês na rebelião de 1835. “Os rebeldes – ou uma boa
parte deles – foram para as ruas com roupas usadas na Bahia pelos
adeptos do islamismo. No corpo de muitos dos que morreram a polícia
encontrou amuletos muçulmanos e papéis com rezas e passagens do Qur’an
usados para proteção. Essas e outras marcas da revolta levaram o chefe
da polícia Francisco Gonçalves Martins a concluir o óbvio: ‘o certo’,
escreveu ele, ‘é que a religião tinha sua parte na sublevação’”,
descreve o pesquisador João José Reis em Rebelião Escrava no Brasil.

Vestir-se bem é questão de honra entre os africanos e seus descendentes.
Seja para homenagear uma divindade ou para mostrar prosperidade, é
preciso estar elegante. Elegância não necessariamente à européia, apesar
de alguns itens do vestuário nagô terem, sim, influência nas volumosas
anáguas e rendas da Corte. O charme de um traje africano está na
combinação de cores fortes, ou no branco soberano. Está no jeito de
amarrar, sem dar um único nó, um tecido na cintura, e ele não cair nem
com o mais rápido dos movimentos. Está na escolha de acessórios que,
quanto mais tribais, mais contemporâneos parecem. Não é sem razão que os
ícones da moda resgatam, cada vez com maior freqüência, as influências
étnicas. Estampas, balangandãs, colares, brincos e pulseiras têm espaço
hoje até mesmo nas mais badaladas vitrines.

O segredo de seu uso, entretanto, é guardado para poucos. É preciso ter
a personalidade de quem não se curva diante das adversidades para exibir
sobre o corpo, com elegância, cada uma dessas peças. A pele negra
reluzente ajuda, mas não é só isso. Há uma sutileza no caminhar, no
jeito de se sentar e até no modo de encarar alguém. Quem se entrega, de
corpo e alma, à história preservada em uma roupa, esse sim, ganha porte
de rei ou rainha.

Partido-alto
De tão bem vestidas, as negras da irmandade de Nossa Senhora da Boa
Morte arrancaram aplausos entusiasmados de milhares de pessoas no
desfile do 4º centenário de Salvador, em 1949. Impressionado com os
torços, saias rendadas, cordões e brincos de ouro, Odorico Tavares
classificou a passagem desse grupo de “pretas baianas, de idade
avançada, caminhando serena e nobremente, como se fossem autênticas
rainhas” como o maior momento do cortejo.

Roupa é assunto tão sério que o termo “mulher de saia”, na década de 30,
designava um grupo de baixo poder aquisitivo, que se opunha às mulheres
de vestido. Talvez como vingança às más línguas que apontavam com desdém
e pena as mulheres que precisavam trabalhar, aquelas que se destacavam
no ramo respondiam com luxo às críticas. Comerciantes de sucesso,
desbravaram mercados, cozinharam, lavaram, costuraram e muitas juntaram
dinheiro suficiente para comprar boas roupas e jóias de ouro reluzente.
Surgiam, assim, as famosas negras do partido-alto. A roupa usada por
elas nos dias de festa, o traje de crioula, deu origem ao vestuário da
baiana de acarajé.

Da rua e das irmandades para o interior dos terreiros, o cuidado com a
forma de se vestir é o mesmo. Agradar ao orixá, inquice ou vodum, nomes
diferentes para as mesmas forças da natureza nas nações de origem ketu,
angola ou jeje, respectivamente, é sem dúvida uma de suas principais
razões. No candomblé, a divindade traz a energia fundamental, o axé,
através do corpo do iniciado. Para recebê-lo, há trajes com cores e
peças específicas, além de acessórios como ferramentas e fios de contas.
Juntos, eles narram a história de cada entidade. Ajudam a contar,
através dos movimentos da dança, os atos heróicos e exemplares do orixá.

“A roupa é a expressão mais sofisticada de uma religião que trabalha com
o elemento estético como determinante”, afirma o historiador Jaime
Sodré. A indumentária em um terreiro é tão organizada que expressa,
inclusive, os graus hierárquicos de seus filhos. Só os mais antigos
devem usar os trajes mais paramentados, cheios de fitas e bordados. É
uma forma de reverenciar a sabedoria dos mais velhos.

Se os antigos filhos de orixá aprendiam a confeccionar suas próprias
roupas no período de iniciação religiosa, hoje essa tradição corre o
risco de se perder. Alguns terreiros têm promovido oficinas para
transmitir às novas gerações o legado artístico de seus antepassados. O
poder dessa alta costura de origem africana é tão forte que há muito
ultrapassou a porteira dos terreiros. Reflexos dessa influência podem
ser percebidos pelas ruas da cidade. “Basta olharmos a quantidade de
pessoas vestidas de branco na sexta-feira, dia de Oxalá, e os homens e
mulheres de vermelho na quarta, dia de Xangô e Iansã”, descreve Jaime
Sodré. Mesmo sem ligação com a religiosidade, o simples hábito de
adotar, no cotidiano, elementos de inspiração afro-brasileira revela
que, mais do que uma forma de cobrir o corpo, a indumentária tem a
capacidade de preservar parte importante da identidade e da cultura de
um povo.

HIERARQUIA DO TRAJE
Somente aos mais antigos iniciados é permitido o uso de
todos os elementos do figurino afro-brasileiro.

A beleza dos trajes de ialorixás como Mãe Menininha do Gantois, Mãe
Senhora, Olga de Alaketu, Gaiaku Luiza, Mãe Runhó e tantas outras
exprime mais do que o esmero das costuras impecáveis. Quem conhece o
universo da religião dos orixás sabe que somente pessoas com alto grau
hierárquico podem usar todos os elementos do figurino afro-brasileiro.
No candomblé, o tempo de iniciação religiosa é diretamente proporcional
à importância e à reverência feita a cada membro da comunidade. Lá, o
tema cada vez mais atual do respeito à terceira idade sempre foi regra.
Nos terreiros, cabelos brancos são sinal de autoridade.
Por mais posses e dinheiro que um iniciante tenha, ele terá que começar
como todos os outros: vestindo a roupa de ração. A vestimenta dos abiãs,
nome dado aos recém-chegados, assim como a dos iaôs e muzenzas –
espécies de noviços – é a mais simples possível. Branca dos pés à
cabeça, confeccionada em morim, inclui o camisu ou camisa de crioula.
Para os homens, a calça de ração. Para as mulheres, a saia de crioula. A
cabeça, parte do corpo mais importante por guardar o axé, estará sempre
coberta pelo ojá. Tudo sem rendas, babados ou decotes.

Cor ancestral
“O branco, que representa a paz, é a cor de Oxalá, o pai de todos os
orixás. Ele não é respeitado apenas pelas pessoas, mas também pelas
outras divindades”, explica a ekede Cinha, do Terreiro da Casa Branca.
Associado à ancestralidade, o branco de Oxalá é a cor utilizada no
“nascimento” de um novo iniciado e também nos rituais fúnebres, chamados
de axexê. “Para nós, a vida e a morte têm quase o mesmo significado,
porque não acreditamos em um fim. Quando morremos, viramos ancestrais”,
explica a ekede.

Nenhuma fita enfeita a barra da saia de uma iaô. O primeiro adereço é
adicionado quando ela completa um ano de iniciação. No terceiro ano,
ganha mais duas fitas. No sétimo, são mais quatro. “Serão feitas roupas
belíssimas de acordo com o tempo de iniciação e também com as posses. O
tecido vai variar, mas se for uma iaô, mesmo rica, ela não pode se
vestir como as mais velhas”, explica Dona Cici, que ocupa o cargo de
egbomi, um dos mais respeitados das casas de matriz africana, já que só
é concedido aos mais antigos.

Essas gradações no trajar servem, inclusive, como maneira de identificar
ocupantes de altos postos religiosos nos terreiros. “Se chega uma pessoa
toda paramentada, você vai tomar a bênção”, exemplifica Jaime Sodré. Mas
a roupa de ração nunca é esquecida: é ela que todos os integrantes da
religião usam para desempenhar as atividades e obrigações cotidianas.
Identidade no torço
Durante o período da escravidão, era comum perceber as diferenças entre
as culturas africanas trazidas ao Brasil através de detalhes da roupa.
Entre as nagôs, o ojá era amarrado com várias voltas ao redor da cabeça.
Já as negras jeje usavam um lenço sobre os cabelos. Dobravam o tecido em
formato triangular, com a ponta para trás. “Até hoje, em Cachoeira, você
conhece quando uma negra é de origem jeje pela forma de amarrar o
torço”, compara a egbomi Cici. Preocupadas em esconder o cabelo, as
muçulmanas amarravam o turbante com as pontas soltas para trás. Usavam,
ainda, o pano-da-costa sempre do lado esquerdo.

Cobrir a cabeça era tão importante para o povo antigo que, de acordo com
muitos relatos, era tradição, só sair de casa com torço ou chapéu. De
acordo com José Valladares, em O torço da bahiana, mais de uma razão
levava a crioula a conservar a cabeça protegida. “A primeira é
resguardá-la contra o sol, sereno e chuva. A segunda é de ordem
religiosa: realmente, se não com um turbante, como poderia sair à rua a
filha de santo que terminou sua iniciação e que por isso está com a
cabeça raspada?”.

Mistura de influências
Justamente pela preocupação em cobrir todo o corpo, as negras islâmicas
preferiam os tecidos pesados e quase não usavam bordados. O muçulmano,
mesmo quando descalço, sinal da condição de escravo, andava com o corpo
todo coberto. Já a nagô se esmerava para produzir os mais belos bordados
e muitas anáguas, devido à influência da Corte portuguesa no Novo Mundo.

Se a Europa tem sua cota de participação no figurino dos descendentes de
africanos no Brasil, também é grande a herança árabe-islâmica. “O
turbante é reconhecidamente de influência mulçumana, que chegou ao
Brasil provavelmente através dos escravos islamizados, durante o Ciclo
da Baía do Benin no século XIX, e também pelos portugueses”, afirmam as
pesquisadoras Juliana Monteiro e Luzia Gomes Ferreira no texto As roupas
de crioula o século XIX e o traje da beca na contemporaneidade: símbolos
de identidade e memória. As chinelas com ponta virada, utilizadas por
algumas negras em ocasiões especiais, bem como as batas longas e
bordadas à mão, são também referências islâmicas. Enquanto as muçulmanas
pensavam em esconder o corpo, as nagôs ostentavam o charme dos camisus
bordados em richelieu, como veremos adiante.

Mas não era somente nos século XVIII e XIX que os negros utilizavam a
roupa, no cotidiano, como expressão de sua identidade. Hoje, já existem
membros da religião dos orixás que usam peças da indumentária africana
fora dos rituais religiosos. É o caso do babalorixá Balbino Daniel de
Paula, fundador do Ilê Axé Opô Aganju, localizado em Lauro de Freitas.
Seja nas tarefas domésticas, seja em compromissos sociais como uma
festa, casamento ou restaurante, é com roupas do continente de seus
ancestrais que ele comparece.

Em casa, Balbino amarra na cintura um tecido africano de cores
vibrantes. Mesmo sem nenhum nó ou laço, o pano não se solta mesmo com
movimentos rápidos. A técnica é mesma feita pela estilista nigeriana
Rasidat Lola Akanni, proprietária da loja Abitoks, no Pelourinho. “Posso
ir em qualquer lugar, que ele não solta”, garante. O babalorixá do
Aganju foi um dos primeiros líderes religiosos do sexo masculino a usar
peças africanas em lugar dos trajes civis, como calça e camisa. A
transformação aconteceu na década de 70, após sua primeira viagem à
África. “Quando eu tive oportunidade, comecei a usar. Passei a me sentir
bem dentro delas”, conta.

Nas festas religiosas e ocasiões especiais, Balbino se veste com a
elegância de um rei nagô. “O Papa não tem suas roupas? Nós também. Para
cada festa de orixá, eu boto uma roupa daquela divindade, afinal, tenho
que representar a minha religião. Para mim, andar bem arrumado é uma
obrigação”, afirma. Ao lado dos tecidos especiais, o filho de Xangô
combina cada peça ao fio de contas mais adequado à ocasião. No
guarda-roupa, acessórios como um anel em formato de pássaro que
pertenceu ao Rei da cidade de Agongô. “Ele era de Carybé. Eu ganhei de
presente”.

Filha de Iroko
Também foi com vestes de rainha que a egbomi Cidália Soledade entrou no
salão nobre da Câmara de Vereadores, no último dia 20 de dezembro. As
portas do poder legislativo foram abertas para celebrar, em sessão
especial, os 70 anos de consagração religiosa de uma das únicas filhas
do orixá Iroko de que se tem notícia. Mesmo sentada numa cadeira de
rodas, a imponência do traje branco e azul claro em richelieu mostrava a
autoridade da senhora de 77 anos. Em seu discurso, ressaltou a
importância da hierarquia, citando o nome de todas as ialorixás do
Gantois, terminando com uma homenagem aos ancestrais. “Presto reverência
a todos que vieram no navio negreiro. Eles são grandes responsáveis pelo
sobrevivência de nossa cultura”.

Cidália ainda se lembra do dia em que, sete décadas atrás, ganhou roupa
nova, duas tranças com laço de fita azul e até sapato, um enxoval
completo feito sob medida para a data especial. O único problema foi
domesticar dentro das sandálias os pezinhos acostumados à liberdade. “Eu
era gorda, você precisava ver! Fui pisando em ovos, os pés doendo.
Entrei no terreiro pela porta da frente, de mãos dadas com minha avó.
Não entrei doente, não. Entrei foi gorda, aquela menina de 7 anos, que
parecia que tinha 10”.

Dona Cidália Soledade conta histórias da década de 30, como se tivessem
acontecido na semana passada. Recorda até da sensação ao tirar os
sapatos, naquela primeira visita, para pedir a bênção à ialorixá da
casa, Escolástica Maria da Conceição Nazareth. “Eu vivi outra vida. O
sapato ficou rolando e até hoje não sei que fim levou”. Diante da
sacerdotisa imortalizada com o nome de Menininha do Gantois, a filha do
orixá-árvore se rendeu aos encantos de Oxum. “Quando tomei a bênção,
Menininha disse: Oh, Cidalinha, como está grande! Oxalá lhe abençoe!
Seja bem-vinda e venha para ficar!”.

INDUMENTÁRIA SAGRADA

Vestuário e adornos dos orixás, inquices e voduns reverenciam a história
de cada divindade.

Quem vai pela primeira vez a uma cerimônia do candomblé pode se
surpreender com a diferença de cores, adornos e ferramentas associados a
um mesmo orixá. Iansã, a deusa dos ventos e tempestades, por exemplo,
faz aparições vestida de branco, em tons de rosa claro ou vermelho. Pode
trazer nas mãos o eruexim, confeccionado com crina de cavalo. Usado para
dissipar os espíritos de energia negativa, ele evidencia a ligação da
deusa com a ancestralidade, afinal Iansã é a única orixá capaz de
enfrentar e dominar os eguns, espíritos ancestrais. Em outras versões,
carrega o alfanje, um sabre curto e largo, que herdou da época em que
era esposa de Ogum, orixá do ferro e da guerra. A senhora dos raios
também porta dois chifres de búfala, animal com o qual aparece
metamorfoseada, em alguns contos. Ver Iansã dançar no terreiro é
observar, através dos movimentos, uma guerreira sensual, arrebatadora e
poderosa.

Os adornos carregados pelo orixá não são escolhidos de acordo com a
preferência dos filhos de santo. Dependem, na verdade, do narram dizem
os mitos sobre cada divindade. É o que os iniciados costumam chamar de
“marca” ou caminho do inquice ou vodum: como ele viveu, por onde passou,
contra quem guerreou. Daí os nomes Xangô Afonjá, Xangô Aganju, Xangô
Baru, Oxum Apará, Iemanjá Ogunté, só para citar alguns exemplos. E que
ninguém pense que esses elementos são dispensáveis nas cerimônias. “Até
mesmo para representar a história evocada numa determinada cantiga, o
orixá precisa da ferramenta”, explica a ebommi Nice de Oiá.

Rei de Ketu
Filhos dedicados como o babá Ossain do Terreiro Ilê Axé Opô Aganju vão a
fundo na pesquisa em busca das características particulares da divindade
que lhes acompanha. “Tenho uma responsabilidade grande para identificar
os elementos de Oxossi e trazê-lo em essência”, afirma Mauro Rossi. O
chapéu usado pelo senhor da caça na última festa do terreiro foi todo
feito à mão, em couro. Oxossi geralmente carrega o ofá, arco e flecha
forjado em ferro, mas pode trazer os bilala, dois pequenos chicotes,
como Carybé mostra em Os deuses africanos no candomblé da Bahia. O orixá
caçador também traz uma capanga, a bolsa de couro onde coloca a caça que
irá alimentar o povo. Rei de Ketu, Oxossi pode portar o eruquerê, objeto
sagrado que simboliza a realeza.

No culto a egum ou egungun, os espíritos ancestrais ilustres aparecem em
cerimônias e rituais para trazer mensagens e boas vibrações para seus
descendentes. Como, na religião de origem africana, a energia viva não
deve se misturar com a dos mortos, não é permitido qualquer contato
físico entre os dois mundos. Para o babá egum, é confeccionada uma roupa
especial, com largas tiras de tecidos, búzios, espelhos e outros
elementos que lembram sua identidade. Acredita-se que o próprio espírito
dê vida ao traje que se ergue sobre o piso e desliza pelo barracão. A
roupa, nesse caso, tem a importância de fazer o contato direto entre o
homem e seu ancestral. É só através dela que é feita essa comunicação.

“Todos esses modelos preservam insígnias importantes para a história do
candomblé”, analisa o historiador Jaime Sodré. Não se trata apenas de
beleza, nem adianta escolher o tecido mais caro ou as cores mais vivas.
“O orixá não enxerga o valor financeiro, nem o ouro. O que ele quer é
que você esteja digno de revelá-lo em seu corpo”, acrescenta Jaime.

Preparar a roupa que será usada pelo iniciado no momento da chegada do
orixá exige um profundo conhecimento da história de cada divindade. Cada
ponto do tecido é costurado de acordo com as regras de cada casa, num
misto de razão e sensibilidade. Por isso, muita gente defende que a
indumentária litúrgica seja confeccionada somente por pessoas da própria
religião. “A roupa tem que ter axé e por isso tem que ser feita na casa
de candomblé”, defende Jaime Sodré. Como a procura por esse tipo de
traje tem aumentado em todo o país, já existem lojas especializadas no ramo.

Jóias de Axé

O mesmo acontece com os fios-de-contas. Os que são vendidos já prontos
em feiras e mercados turísticos são pouco utilizados por quem vive nos
terreiros. “A confecção de uma conta é algo muito sério. Quando se enfia
uma conta, você deve concentrar toda a energia em cada uma das miçangas.
Depois, é preciso lavá-la com as folhas devidas. Caso todo esse ritual
não seja cumprido, o elo de energia se perde”, afirma Mauro Rossi.
Os fios-de-contas são assunto de tanta responsabilidade que o babalorixá
é quem escolhe a pessoa que fará as primeiras contas de cada novo membro
da comunidade. “Intransferível, o fio-de-contas é um objeto permanente.
É acompanhante da vida, no trabalho, no lazer, nos diferentes momentos
sagrados no terreiro”, diz o antropólogo e museólogo Raul Lody no livro
Jóias de Axé. De todos os fios, existe um que irá seguir o iniciado por
toda a vida, o runjebe. “Existe todo um ritual de rezas para a confecção
dele”, explica Mauro. Essa peça, feita com miçangas marrons, corais e
seguis, simboliza a história da vida daquela pessoa e vai acompanhá-la
pela eternidade. De tão especial, o runjebe só é entregue na obrigação
de sete anos de feitura de um iaô.

Aos 68 anos, a egbomi Nice de Oiá, da Casa Branca, conhece de perto o
prazer de se sentir bela. “É um privilégio recebermos essa energia da
natureza, então gosto de me vestir com muito capricho para que a própria
divindade se sinta bem”, afirma. Os trajes de inspiração africana já
integram o cotidiano da filha de Iansã. “Sinto prazer em usar minhas
roupas africanas, minhas contas, meus brincos, meus ojás. Ando a caráter
no dia-a-dia porque não nego minhas raízes. Devemos nos orgulhar daquilo
que somos”, enfatiza.

Orgulho também não falta aos filhos de terreiros angola e jeje. Apesar
de descenderem de nações diferentes, cultuam divindades semelhantes, só
que com outros nomes. “Dandalunda, que corresponde a Oxum, tem contas
amarelo leitosas, em vez de douradas. Ela não usa o abebé, mas tem
aquelas continhas de lágrimas de Nossa Senhora”, descreve o xicarangoma
Esmeraldo Emetério de Santana Filho, o Chucuca, do Terreiro Tumba
Junçara. Ao contrário do que acontece nos terreiros nagôs, os inquices
femininos não se enfeitam com peças como o filá e o abebé.

Outra característica forte dos bantos é o uso de penas nos adornos dos
inquices, sobretudo nos caboclos. “Os índios conviveram muito com o povo
banto, que foram os primeiros escravos africanos a chegar ao Brasil.
Então o uso da pena é uma forma de reverência, faz parte de nossa
identidade”, explica Chucuca. Para o xicarangoma – responsável pela
comunicação através do toque dos instrumentos musicais – justamente por
terem chegado antes de integrantes de outras nações, houve perdas na
tradição angola. “Não houve tempo para nossos ancestrais trazerem seus
pertences e assentamentos religiosos. Por isso, houve uma certa
influência do povo iorubá. Mas isso não justifica o que algumas fazem,
falar que somos umbandistas, por exemplo”.

Intercâmbio religioso
A troca de informações entre representantes das diversas nações
africanas que chegaram ao Brasil fez com que tradições se modificassem.
Tanto que hoje é difícil falar em costumes exclusivamente nagôs, angola
ou jeje. Apesar de, sem dúvida, provocarem a perda de certos elementos,
essa capacidade de diálogo foi fundamental para a sobrevivência das
expressões religiosas de origem africana.

Algumas casas, entretanto, tentam conservar ao máximo as regras ditadas
pelos primeiras sacerdotisas. No terreiro que foi liderado por Gaiaku
Luiza, na cidade de Cachoeira, a iniciação religiosa, por exemplo, exige
um ano de dedicação do aspirante. Em outras locais, devido às
necessidades de trabalho e estudo, esse tempo já foi bastante reduzido.

A estética do figurino jeje finca raízes na simplicidade. A Hunkpame
Ayiono Huntoloji, ekede confirmada em 1983 pela própria Gaiaku, fala com
tranqüilidade e exprime grande respeito pela religião ancestral. “Até
nosso torço é diferente. Acordado, fora das festas, a gente fica sempre
descalço e sem nenhum pano cobrindo a cabeça”, compara Cleuza Maria
Santana Santos. Na casa de origem jeje, a hierarquia do traje envolve
uma quantidade menor de adornos. Todas as filhas, mesmo as mais antigas,
usam a camisa de crioula. “Só quem usa a bata é a mãe de santo. Há
filhos de 40 anos de feitos que andam descalços e ainda sentam na
esteira”, acrescenta.

Rei do Pano Branco

A simplicidade também é a palavra que guia as roupas e adornos do
primeiro orixá criado por Olodumaré, Oxalá, o Rei do Pano Branco. Suas
filhas do sexo feminino usam saia, um ojá na cabeça e outros ojás
amarrados no corpo, chamados de pacajás. Os homens, em vez da saia,
vestem um bombacho, tudo confeccionado em tecidos simples como o
madrasto. Nas mãos, ele leva o opaxorô, ferramenta com três divisórias
cheias de simbolismo. Como Oxalá é o pai supremo, ligado ao nascimento e
à morte, sua força transita entre os três mundos do candomblé: o Orum,
onde estão aqueles que já viveram, o Aiyê Airí, morada dos que ainda
estão por vir, e a terra onde habitamos, o Aiyê. No alto do opaxorô, o
pássaro Osun, que tem a missão de estar sempre acordado para tomar conta
dos filhos do orixá.

FORÇA FEMININA

A roupa de crioula e o traje de beca simbolizam a ascensão social
conquistada pelas negras através da religião e do trabalho nas ruas.

Festa da Boa Morte
Primeiro Dia – Irmãs vestidas de branco, numa alusão à cor do luto no
candomblé.
Segundo Dia – Irmãs vestem saia preta plissada, com bata branca. O rosto
e o cabelo são cobertos pelo bioco, lenço branco que homenageia as
negras muçulmanas.
Terceiro Dia – É o dia do Traje de Beca, quando as tradicionais jóias de
crioula são exibidas, em um ato de fortalecimento da identidade e da
auto-estima dessas mulheres.

Na Bahia Colonial, lugar de mulher era dentro de casa. As damas das
famílias mais poderosas afastavam-se pouquíssimo do ambiente doméstico.
Sair do sobrado, só mesmo para algum espetáculo teatral ou festa
imperdível. Chegava a ser irônico: ver roupas caríssimas e luxuosas
trancadas nos sobrados. Além dos homens, quem tinha liberdade para ir e
vir pelas ruas da cidade eram as mulheres mais pobres, negociantes que
possuíam vendas, escravas de ganho, negras que mercavam pela cidade.
Livres, saíam para providenciar o sustento das próprias casas. Cativas,
aumentavam o rendimento de seus senhores ou mesmo labutavam para comprar
a própria alforria.

“O que se via era o avesso da indolência conventual das senhoras brancas
da elite. A vida corria ao ar livre. Tudo era atividade. E o fato é que
eram principalmente elas e os negros de ganho que davam colorido às ruas
da cidade”, afirma Antonio Risério em Uma história da Cidade da Bahia.
Muito desse colorido tinha origem nas roupas com que se vestiam as
afro-brasileiras. Uma combinação de tons, rendas e tecidos que
impressionava o olhar dos viajantes europeus que desembarcavam em terras
brasileiras.

Nem mesmo o Príncipe Maximiliano de Habsburgo, com o olhar eurocêntrico
comum ao período, ficou incólume ao figurino tão diferente dos salões
europeus. No livro Bahia 1860, ele descreve as vestes de uma mulher que
surpreendeu o grupo. “Ela vestia a roupa pitoresca e singular das negras
brasileiras, que lembra ainda sua pátria africana: um vestido de algodão
de floreado vistoso flutua negligentemente em torno de suas ancas que se
balançam molemente, uma camisa branca sem mangas, que parece jogada lá
por acaso, envolve o busto. Para circular na cidade, um xale matizado de
diversas cores cai dos ombros em pregas elegantes”. Na opinião do
historiador Jaime Sodré, a profusão de cores vivas é uma das maiores
contribuições da herança religiosa africana ao vestuário baiano. “O
candomblé trouxe para a sociedade baiana a ousadia de usar cores”,
afirma o pesquisador.

Como apontam os pesquisadores Juliana Monteiro, Luzia Gomes Ferreira e
Joseania Miranda Freitas, as roupas, nas diversas sociedades, além de
protegerem o corpo e destacarem a beleza, estabelecem hierarquias e
tornam-se símbolos identitários por meio dos quais é possível refletir
sobre os valores sócio-culturais de determinados grupos.

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